Há pessoas que nasceram para serem vazias ?
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Enquanto as luzes dos carros piscavam pela janela do ônibus, e as lágrimas desciam pelo meu rosto sem permissão, eu estava tentando lutar em vão contra os meus pensamentos. Naquele momento eu só queria ser ela.
Ser quem eu era, nada mais adiantava. As minhas roupas, o meu cabelo, a minha bolsa de couro, não me serviam mais… Era ela, com toda a sua simplicidade, com todos os seus defeitos, com a sua camiseta branca, que ele queria. Talvez tivesse me desejado por uma noite, ou duas, talvez quisesse minha companhia por alguns instantes, talvez por mim sentisse desejo, mas era com ela que ele queria passar o resto da vida, era por ela que ele sentia amor.
Chorei todas as lágrimas que pude, meu delineador, tão bem aplicado, escorria pelo rosto, me dando um aspecto cruel, o homem que estava ao meu lado me perguntou se eu estava me sentindo bem, menti respondendo que sim, e ambos nos calamos pelo resto da viagem.
Levantei as pressas quando percebi que quase havia passado do meu ponto de descida, apressadamente dei sinal, fazendo com que o motorista freiasse bruscamente. Apanhei minha bolsa, ajeitei o cabelo e desci, agora estaria sozinha pelo resto do caminho, apenas com meus pensamentos.
Abri a bolsa e tirei a minha vodka barata, sem cerimônias dei o meu primeiro gole e continuei minha caminhada. A imagem dele não saia da minha mente, seus olhos me encarando com sinal de desejo, suas mãos passando pela minha cintura… Desejo era tudo que eu conseguiria dele, e eu me sentiria realizada se conseguisse isso de qualquer outro homem, mas dele… Eu queria mais, eu precisava de muito mais.
Vivi intensamente o pouco tempo que passei com ele. A cada minuto o admirava mais… Por um momento cheguei a acreditar que o teria pra sempre, que ele me quereria para sempre. Sonhei como sonham as garotinhas bobas que acreditam no amor, e por um instante tive a doce ilusão de que o ‘pra sempre’ era possível, me apeguei a essa esperança como um pecador em busca de salvação. Seria isso possível para mim?
Finalmente cheguei em casa. Abri a porta e entrei, não a fechei novamente, estava muito desnorteada para isso, também não acendi as luzes. Coloquei a garrafa de vodka em cima da mesa e corri para o quarto, fazendo questão de derrubar tudo que estava ao meu alcance, me joguei na cama e novamente comecei a chorar.
Eu não era nada, deixei de me sentir alguém no momento que abri mão dele pra ela. Frente a frete com ela, seus olhos me encarando de cima a baixo, eu podia ouvir os xingamentos vindos de seus pensamentos. Fechei os olhos na tentativa de segurar as lágrimas enquanto via sua silhueta desaparecer junto a dela. Engoli meu ego, calei meu egoísmo e guardei minhas palavras de baixo calão, eu simplesmente o deixei ir…
Abri mão do homem que eu amava, simplesmente por amá-lo. Logo eu que nunca havia me dado o desprazer de amar alguém, estava pressa em uma teia de miséria e sofrimento.
Não, eu não o teria. Não lutaria. Para que se arriscar em uma batalha que já está perdida? Nós seres humanos somos programados para o amor, mas eu não nasci assim, eu não preciso do afeto, não necessito do carinho, não me importo com os sentimentos. Interpretei o meu papel durante anos, não há atriz que possa me interpretar tão bem…
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Enquanto as luzes dos carros piscavam pela janela do ônibus, e as lágrimas desciam pelo meu rosto sem permissão, eu estava tentando lutar em vão contra os meus pensamentos. Naquele momento eu só queria ser ela.
Ser quem eu era, nada mais adiantava. As minhas roupas, o meu cabelo, a minha bolsa de couro, não me serviam mais… Era ela, com toda a sua simplicidade, com todos os seus defeitos, com a sua camiseta branca, que ele queria. Talvez tivesse me desejado por uma noite, ou duas, talvez quisesse minha companhia por alguns instantes, talvez por mim sentisse desejo, mas era com ela que ele queria passar o resto da vida, era por ela que ele sentia amor.
Chorei todas as lágrimas que pude, meu delineador, tão bem aplicado, escorria pelo rosto, me dando um aspecto cruel, o homem que estava ao meu lado me perguntou se eu estava me sentindo bem, menti respondendo que sim, e ambos nos calamos pelo resto da viagem.
Levantei as pressas quando percebi que quase havia passado do meu ponto de descida, apressadamente dei sinal, fazendo com que o motorista freiasse bruscamente. Apanhei minha bolsa, ajeitei o cabelo e desci, agora estaria sozinha pelo resto do caminho, apenas com meus pensamentos.
Abri a bolsa e tirei a minha vodka barata, sem cerimônias dei o meu primeiro gole e continuei minha caminhada. A imagem dele não saia da minha mente, seus olhos me encarando com sinal de desejo, suas mãos passando pela minha cintura… Desejo era tudo que eu conseguiria dele, e eu me sentiria realizada se conseguisse isso de qualquer outro homem, mas dele… Eu queria mais, eu precisava de muito mais.
Vivi intensamente o pouco tempo que passei com ele. A cada minuto o admirava mais… Por um momento cheguei a acreditar que o teria pra sempre, que ele me quereria para sempre. Sonhei como sonham as garotinhas bobas que acreditam no amor, e por um instante tive a doce ilusão de que o ‘pra sempre’ era possível, me apeguei a essa esperança como um pecador em busca de salvação. Seria isso possível para mim?
Finalmente cheguei em casa. Abri a porta e entrei, não a fechei novamente, estava muito desnorteada para isso, também não acendi as luzes. Coloquei a garrafa de vodka em cima da mesa e corri para o quarto, fazendo questão de derrubar tudo que estava ao meu alcance, me joguei na cama e novamente comecei a chorar.
Eu não era nada, deixei de me sentir alguém no momento que abri mão dele pra ela. Frente a frete com ela, seus olhos me encarando de cima a baixo, eu podia ouvir os xingamentos vindos de seus pensamentos. Fechei os olhos na tentativa de segurar as lágrimas enquanto via sua silhueta desaparecer junto a dela. Engoli meu ego, calei meu egoísmo e guardei minhas palavras de baixo calão, eu simplesmente o deixei ir…
Abri mão do homem que eu amava, simplesmente por amá-lo. Logo eu que nunca havia me dado o desprazer de amar alguém, estava pressa em uma teia de miséria e sofrimento.
Não, eu não o teria. Não lutaria. Para que se arriscar em uma batalha que já está perdida? Nós seres humanos somos programados para o amor, mas eu não nasci assim, eu não preciso do afeto, não necessito do carinho, não me importo com os sentimentos. Interpretei o meu papel durante anos, não há atriz que possa me interpretar tão bem…
(….)
E enquanto o vento sopra lá fora e o meu coração é despedaçado pela dor, aproveito a solidão do meu quarto para transbordar-me em quantas lágrimas me forem precisas, amanhã minhas trevas não desaparecerão com o sol, mas manterei meu teatro.
Victoria L.
25/03/84
25/03/84

“One step to heaven”
